A Catástrofe
Homens e orcs digladiaram-se por quase um milênio pelo domínio de Rivara. Uma guerra tola, brutal e que jamais teve uma definição... Não até a ascenção de Theod Morgan como imperador dos hiar. Theod era obcecado por magia e depositava nela todas as suas esperanças de acabar de uma vez por todas com o conflito. Mas isso estava cada vez mais difícil, pois seus espiões já lhe haviam comunicado que o rei orc, Ulkir, havia estabelecido aliança com tribos leokaninas de Igstar. Os termos de tal aliança nunca foram conhecidos. Muito cogitou-se sobre tentar uma aliança com os saurians, porém eles eram reclusos demais para serem encontrados e a raça como um todo não tinha uma liderança formal. Theod viu-se forçado a contar unicamente com sua obsessão. Havia naquela época rumores de um grupo oculto e misterioso de magos humanos que se isolava no extremo leste de Rivara. Eles não tinham nome conhecido e sua existência era quase uma lenda, assim como seu poder. Theod enviou centenas de homens fiéis para vasculharem o leste à procura destes magos afim de recrutá-los para a guerra. Foram quase dois anos de busca incessante, mas finalmente eles foram encontrados. Seu então líder, Arnax, foi levado ante a presença de Theod e, sob um acordo oculto, os magos aceitaram ajudá-lo.
O tempo avançou. A guerra cresceu. Chegou ao conhecimento de Theod que centenas de navios cheios de leokans ensandecidos cruzavam as águas que separavam Igstar de Rivara para alimentarem as forças de Ulkir. Era chegado o momento de agir. O conflito de seus exércitos foi inevitável, mas Theod era um homem obcecado pela vitória, obcecado o suficiente para cometer um ato pelo qual seu nome foi amaldiçoado na história dos homens. Enquanto a maior parte de seus exércitos combatia os leokans e orcs com ferocidade no Vale de Kandor, um grupo formado pelos magos mais poderosos da ordem, incluindo o próprio Arnax, uniu-se para invocar sobre todos eles uma imensa e poderosa magia de maldição. Dezenas de vozes evocaram aquele feitiço do alto das montanhas que cercavam o vale. Foi algo nunca feito em tais proporções. E apesar de seu poder e sabedoria, os magos não puderam conter o que acabaram desencadeando. A magia que eles invocavam manipulava não apenas o material. Eles pretendiam romper a barreira entre o mundo físico e o imaterial, liberando sobre seus inimigos espíritos furiosos que devastariam tudo que fosse vivo entre as montanhas. Mas eles não conheciam realmente aquilo com o que estavam lidando. A fenda da barreira não pôde ser contida. Uma invasão em larga escala de espíritos coléricos adentrou o mundo mortal junto com uma praga de morte, arruinando, corrompendo e destruindo tudo que era vivo ao seu redor, expandindo-se rapidamente. Orcs, leokans e homens viram-se obrigados a abaixarem suas armas e recuarem diante de tamanho terror, mas foi em vão. Apenas o remanescente de suas tropas e nobreza conseguiram evacuar o continente de Rivara em seus navios enquanto a praga e os espíritos avançavam vorazmente sobre seu mundo, assolando e tornando Rivara naquilo que é conhecido hoje: o continente desolado.

Os leokans que conseguiram sobreviver retornaram à Igstar. Já os homens e orcs não tinham destino. Inicialmente ficaram circundando o litoral do continente, esperando que os efeitos devastadores daquela magia cesassem, mas isso não aconteceu. Se fossem para Igstar, encontrariam resistência dos leokans e saurians. Mesmo os orcs, tendo forjado uma aliança de guerra, não encontrariam abrigo no país natal dos bárbaros leokans. Loriak estava muito distante, muito ao sul, e os rumores dos dragões afugentavam até mesmo os mais destemidos guerreiros. Apenas uma opção restou para eles: o continente do norte, Arkalon, terra de elfos, centauros e anões. Os homens cruzaram o mar e aportaram no oeste. As frotas de navios orcs aportaram numa grande ilha a leste do continente. Os homens seguiram para o norte enquanto os orcs exploraram a parte sul e meridional da ilha. Eles não sabiam disso, mas ali nascia a terceira era de Faingard, a Era da Catástrofe, como ficou conhecida. As duas raças precisaram recomeçar suas civilizações, mas nada podia deter sua vontade de sobreviver. Por décadas, homens e orcs permaneceram sem serem abordados ou ameaçados pelos nativos. Os elfos, anões e centauros conheceram sua chegada, mas não interviram, pois nenhum dos dois bandos havia cruzado os limites dos reinos habitados por eles. Cada lado desenvolveu-se como pôde no princípio e, com o passar das décadas, conseguiram se estabelecer. Apesar disso, o ódio mantinha-se aceso em seus corações e, aos poucos, o antigo conflito de Rivara estava ficando mais perto de recomeçar.